Piano de peixe sabe tocar

À frente estão as teclas, como noutros pianos, mas logo em cima está um aquário. Catarina Homem Marques foi conhecer o atelier no Cais do Sodré que também é bar e tertúlia cultural. David Clifford captou o ambiente marítimo-musical do Piano Aquário.

Time Out Lisboa - Piano de peixe sabe tocar - Vera Prokic

Time Out Lisboa – Piano de peixe sabe tocar – Vera Prokic

Pode parecer um simples atelier de música esquecido atrás de uma porta azul entre um café e uma loja de ferragens, mas também pode ser um bar. Pode parecer um piano normal, o que a nível do som que sai das teclas até é, mas também pode ser um aquário de grandes efeitos visuais. E Vera Prokic pode parecer apenas uma professora de piano e concertista, mas prova com o estúdio Piano-Aquário que tem ideias para ser mais do que isso.

“Quando vim para aqui, em Setembro de 2013, nem sabia o movimento que passava por aqui”, explica a croata, que vive em Lisboa há 23 anos. Por aqui entenda-se a Rua da Ribeira Nova, Cais do Sodré. Mas quando descobriu que o barulho das pessoas e dos bares se sobrepunha à música que saía do piano, não ficou furiosa e a gritar por silêncio. Não os podia vencer, juntou-se a eles. “Pedi uma autorização à vereadora da cultura da Câmara e adaptei o espaço.”

Agora. alem das aulas de piano que continua a dar durante o dia, abre sempre às quintas, sextas e sábados à noite para vender vinho e cerveja. E abre as portas a todos os que queiram arriscar umas notas musicais. “O que pensei foi: o que se pode fazer para dar a estas pessoas que acham que a vida é só comer e beber?” Juntou então um pouco de cultura à equação e percebeu que as pessoas que flanavam pelo Cais do Sodré achavam muita graça à possibilidade de entrar em algum lado para tocar (ou ouvir) piano e beber cerveja. “As vezes demoram a vencer a vergonha, mas depois divertem-se muito.”

E não sendo um piano de cauda de enormes dimensões, daqueles que prendem sempre o olhar (até porque não caberia na pequena sala do atelier onde ainda tem de haver sempre espaço para Isolda e Gnoca, as duas cadelas de Vera), tem uma característica única que embrulha o conceito – um aquário incorporado. “Foi inventado na oficina do Fernando Rosado, na Cruz Quebrada, e primeiro foi para o CCB. Mas logo que o vi lá apaixonei-me. Tinha de o comprar.”

Por conta da iluminação nocturna dos peixes, até já houve três tentativas de roubo. “Mas entre o piano e a água do aquário, gostava de ver algum ladrão a arrastar este piano para fora daqui.” Além do peso da música, com um busto de Liszt a indicar as preferências da pianista, ainda teriam de levar os oito peixes tropicais que ali vivem. “Eles adoram ouvir música, quase tanto como as minhas cadelas. E têm a vantagem de sentir as vibrações directamente.”

Isto significa que além de treinar escalas e afins – “porque o piano tem de se praticar sempre ou então vai-se” -, Vera Prokic tem de limpar o aquário de oito em oito dias e alimentar os peixes. “Mas compensa. E tão bonito. E até ajuda nas aulas que dou a crianças. Ficam tão contentes com o aquário que têm mais vontade de aprender.”

E aprender é mesmo outra das missões do Piano-Aquário. “As aulas podem custar de 80€ a 280€, consoante o grau de compromisso do aluno. E é preciso acabar com o mito de que só se aprende de pequeno – aprende-se em qualquer idade.” Então, se não achar suficiente passar por uma noite apenas para partilhar da experiência do piano que também é bar, apareça para ter lições, ao mesmo tempo que olha para um aquário. Aproveite também para ver Vera Prokic em concerto no Festival Todos. Ou até, se ela levar a dela avante, um dia também a poderá ver a encher de música a estação de comboios do Cais do Sodré ao fim-de-semana.

Time Out Lisboa – Setembro 2014

Partilhar