Barbeiro de Rossini canta nas ruínas do Carmo

Exmovere: emoção, movimento de dentro para fora; emoção como essência da vida.” Foi a partir desta definição que a pianista jugoslava Vera Prokic, que vive há vários anos em Portugal, idealizou uma produtora de eventos culturais com o mesmo nome (“Exmovere”) e um projecto multicultural alternativo para Lisboa a decorrer entre 22 e 30 de Junho em dois espaços privilegiados: o Espaço Interpress (no Bairro Alto) e as ruínas do Convento do Carmo.

No primeiro vão realizar-se a partir do dia 24 exposições de fotografia, pintura, performances, instalações, pequenos concertos, apresentações multimédia e documentários dinamizados por artistas portugueses, espanhóis e croatas, entre outros.

Por seu turno, as ruínas do Carmo servirão de palco à apresentação da ópera de Rossini, “O Barbeiro de Sevilha”, com encenação de Carlos Otero, que se estreia hoje, às 21h45 (com repetição nos dias 23, 25 e 26 de Junho).

“Durante o mês de Junho, época dos santos populares, Lisboa fica com outra vida. Pensámos que era a época ideal para diversificar a oferta cultural e fazer conviver pacificamente o popular e o erudito”, contou Vera Prokic. A pianista escolheu “O Barbeiro de Sevilha” porque “o humor é também uma essência da vida e a obra de Rossini é musicalmente genial”.

Esta produção foi pensada para decorrer ao ar livre, transpondo a acção do texto original de Beumarchais para um bairro típico da Lisboa dos anos 50. “O espectáculo deveria chamar-se ‘O Barbeiro de Lisboa’!”, comenta a pianista. “Mas haverá total fidelidade ao argumento e à música original, ainda que a obra seja apenas interpretada ao piano”. Esta opção deve-se a questões logísticas e financeiras, mas “é legítima porque se trata de uma prática que se usava nos primórdios das apresentações de ópera e nos círculos mais restritos novecentistas.”

A principal preocupação de Carlos Otero foi “pôr em cena o ‘Barbeiro de Sevilha’ como Rossini gostaria que ele fosse. Os cantores estão aqui para se divertirem e para divertir o público.” E realça a magia do local: “É um sítio maravilhoso. Temos a harmonia do espaço, que é a definição de arquitectura, e a harmonia dos sons, que é a definição de música.” As ruínas do Carmo serão iluminadas e animadas com projecções de vídeo de carácter simbólico alusivas ao imaginário da cidade.

O tenor português, residente em Bolonha, Fernando Opa, que irá desempenhar o papel do Conde de Almaviva, foi o mais directo colaborador de Vera Prokic na selecção do elenco, que inclui cantores de várias nacionalidades e gerações, nomeadamente Timothy Lafontaine (Bártolo), Claudia Marchi (Rosina), Bruno Tadia (Fígaro), Luca Gallo (D. Basilio), Fernando Serafim (Fiorello e Oficire) e doze membros do Coro da Gulbenkian e do Conservatório Nacional.

Fernando Opa tem em Luigi Alva, com quem também chegou a estudar, uma referência para os papéis rossinianos. O Barbeiro foi a segunda ópera de estreia do tenor português, numa produção em Pádua há dez anos. Depois disso já fez cerca de uma centena de récitas desta obra, destacando entre elas a produção com encenação de Dario Fo apresentada na Holanda. “Em Itália e no resto da Europa é muito comum fazer ópera ao livre usando espaços naturais como cenário. Espero que esta experiência nas ruínas do Carmo seja seguida de muitas outras, tanto em Lisboa como no resto do país”, disse o tenor num intervalo dos ensaios, este fim-de-semana.

O italiano Bruno Tadia é a primeira vez que se apresenta em Portugal e a segunda que canta o papel de Fígaro “mas já tinha cantado a personagem de Bartolo, que é uma espécie de negativo do Fígaro”. Com 29 anos, estreou-se em 2001 no Festival Rossini de Pesaro, como D. Alvaro na ópera “Il Viaggio a Reims”. Aluno Paolo Montarsolo – “devo-lhe tudo o que sou” – Tadia estudou também violino e composição. “Foi uma experiência muito importante que me ajudou a compreender a arquitectura interna das obras e me deu um grande respeito pelo texto musical. O que está escrito foi muito pensado. É muito importante ter a noção de que o compositor partiu da folha em branco e organizou o material para o transformar em música.” Para já pretende continuar a desenvolver a sua voz com o repertório rossiniano e mozartiano, mas o seu grande sonho é vir um dia a fazer o Golaud do “Pélleas et Mélisande”, de Debussy, e “Evgueni Oneguin”, de Tchaikovski.

“O Barbeiro de Sevilha”, de Rossini
Fernando Opa, Timothy Lafontaine, Claudia Marchi, Bruno Tadia, Luca Gallo, Fernando Serafim (cantores), elementos do Coro Gulbenkian e do Conservatório Nacional, Vera Prokic (piano e direcção musical), Carlos Otero (encenação)
LISBOA Ruínas do Convento de Carmo, hoje, dias 23, 25 e 26, às 21h45. Bilhetes de 15 a 35 euros.

22.06.2004 – Por Cristina Fernandes, PÚBLICO

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